A abertura do Estreito de Ormuz já deixou de ser um assunto sério há muito tempo. É mais uma ópera bufa com episódios diários, resumos semanais e aqueles narradores do dramático pagos a peso de ouro pelas estações de televisão, que insistem em dizer “tudo pode mudar a qualquer momento”, mesmo quando nada muda há meses.
Todas as manhãs, os pseudonoticiários anunciam um avanço histórico saído no Truth Social . À tarde, a Trump dá-lhe uma azia e esse avanço transforma‑se num recuo estratégico. À noite, curada a gastroenterite presidencial, afinal não era avanço nem recuo — era só um “reposicionamento tático ”, expressão que significa “ninguém faz ideia do que está a acontecer, mas temos de encher doze minutos de emissão à custa da má disposição do "Donalde".
Os navios passam?, não passam!, desviam, voltam, param, aceleram, piscam os faróis em código Morse… e cada gesto é interpretado como se fosse uma mensagem cifrada do destino da treta nesta zanga de compadres.
Um cargueiro muda de rota por causa do vento? “Tensão aumenta. Os mercados mijam-se e a especulação ejacula! ” Um petroleiro atrasa vinte minutos? “Crise iminente.” Um marinheiro espirra? “WTI e BRENT em alerta.”
Entretanto, os comentadores residentes — que já deviam ter cartão de pontos por presença e milhas extra nas viagens aéreas — explicam tudo com a confiança de quem nunca viu o mar de perto nem sabe exatamente onde fica o famigerado Estreito, mas já decoraram trezentas expressões militares e nove mapas coloridos com a localização de túneis repletos com os malvados drones iranianos.
E assim seguimos, dia após dia, entre ameaças que não ameaçam, retaliações que não retaliam e acordos que se desfazem e duram menos que um gelado ao sol do Alentejo.
No fundo, o Estreito de Ormuz tornou‑se o spin‑off geopolítico que ninguém pediu, mas que continua no ar porque dá audiências. E como qualquer péssima novela, termina sempre com a mesma frase:
“Sim, amanhã há mais… ou talvez não... ou talvez nim.”