Blogue do Papagaio Indiscreto

Cemitérios... tinha prometido!!

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   Ontem, fui ao  cemitério. Não, não para lá ficar! - foi só de passagem, a apreciar as vistas, visitar os entes e ver se arranjava alguém com quem dar dois dedos de conversa, para passar um tempito menos monótono. Isto de se conviver com qualidade e ter conversas interessantes no mundo dos vivos está cada vez mais complicado, sobretudo depois que Trump convidou o Cristiano e a Gina para irem jantar à Casa Branca. Não se encontra ninguém a falar de mais nada! Por essas e outras,  infelizmente, chego à conclusão que é mais fácil arranjar com quem conversar no meio dos mortos e do silêncio, às três da tarde, do que no meio de uma discoteca barulhenta e estérica às três da manhã. Ainda pensei em ver a CMTV, mas...também não é flor que se cheire!

    Da mesma forma, entenda-se que o coveiro faz mais sentido, de tarde, enquanto ainda está sóbrio, a cavar buracos entre os jazigos, do que ébrio a meio da madrugada, entalado entre duas mamudas, de copo na mão, vestidas de top aberto até ao umbigo e a cheirar a Glossy fora da validade e a Moscow Mule.

   O cemitério que visitei é bonito, limpo, organizado, um brinquinho. Aposto que os meus estimados "leitores"? adorariam lá passar, também!... é o da minha freguesia, que agora é vila, mas já foi aldeia. Está arranjadinho: ar de novo, cheira a novo! Muros pintados de branco fresco, canteiros arranjados de flores estranhas de dizer o nome, talhões aprumados, água corrente nas torneiras, passeios em calçada portuguesa, luz noturna em todos os corredores, com LED's solares amigos da camada do ozono! Ao espaço só lhe falta umas jantes de liga leve! Um verdadeiro Mercedes das necróples! A junta de freguesia esmerou-se, nos últimos tempos, juntamente com  a Câmara Municipal, e decidiram dar aos seus fregueses o melhor, na sua Hora!

   A certa altura, no meio dos pensamentos que me povoavam a mente, enquanto ali estava,  - num ambiente muito tranquilo, diga-se já!, mas nada sinistro!, - ocorreu-me uma revelação  deveras dramática: na minha freguesia -e até no meu município-, precisamos falecer para sermos bem tratados! Na verdade, o cemitério é a "obra" da vila que se apresenta em melhores condições! Quem é da minha terra, se está vivo, fica pela hora da morte. Percebe que só morrendo é que conseguirá atingir as condições necessárias para poder viver. Por exemplo, quem compra carro e tem de o usar nas estradas esburacadas desta terra, -peço desculpa-, nos caminhos de cabras com pedacinhos de alcatrão desta terra, percebe que deveria ter dado um tiro na cabeça antes, ou colocar uma corda ao pescoço primeiro, e só depois entrar no stand!

     É com cada cratera nas estradas do meu povo que fariam corar de vergonha as próprias covas do cemitério! Sai mais barato comprar carro novo enquanto defunto do que um em segunda mão enquanto vivo. Para além disso, é mais fácil arranjar estacionamento no cemitério do que no meio da rua, porque aí não há passeios e os poucos que há são a pagar.

   E podia continuar aqui a falar das precárias condições de "vida" dos vivos meus conterrâneos. Do centro de saúde a cair de velho, com mais grafitti  que as carruagens da linha de Sintra, do parque de diversões com os cavalinhos podres e com pregos enferrujados,  a fazerem os putos apanharem tétano.  Ou as paredes da esquina do salão cultural, a cheirarem a xixi dos amorosos que lá vão fazer a toillete e deixar os preservativos usados, ou, ainda, das casas típicas da terra - património cultural! - em escombros, a ameaçar ruir em cima da cabeça dos peões, sujeitos eles a irem parar ao cemitério! Que sorte que eles tinham se levassem ou se lhes caísse um pedaço de alvenaria em cheio nos chifres! Subiam logo na escala do PDM!  Mas calo-me já... pulei o muro da morada eterna e encontro-me no  meio da estrada! Ainda morro atropelado! Estou-me a desviar...!

    Um dia, se eu morresse, era para um lugar destes que queria ir, de facto! Todo o defunto que se preza gostaria de um cemitério assim (premium), largo, espaçoso, com divisões pensadas e cuidadas de esmero pela autarquia, para todos os seus frequentadores crónicos. Um regalo!!

   A situação é tão exclusiva que eu temo, dada a mesquinhez de muita alma saloia que habita este país, que um dia destes alguém muito iluminadamente se lembre, no burgo, de criar um imposto especial para se poder morrer por cá! Uma espécie de IUC ou IMI dos mortos! Por isso, se alguém estiver a pensar em bater a caçoleta, como dizia o outro, é aproveitar agora enquanto pode, que fica mais em conta. Para já, nem a Junta de Freguesia nem a Câmara  ainda repararam que andam a tratar as alminhas com mordomias a mais, sem chimparem um extra para a edilidade!

   

 

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