
A questão relativa ao assédio passou a ser tratada com a maior das atenções na comunicação social, a partir da divulgação dos 865.765.392 casos - tudo à mesma hora! - que envolveram pessoas famosas residentes em Hollywood, pessoas, essas, todas trabalhadoras da indústria do cinema e notoriamente do sexo feminino. O tema, no entanto, não é novidade, facto que deixou desapontadas muitas das mulheres que contavam ir injetar escândalo e veneno para as principais revistas cor de rosa e tirar proveito financeiro disso mesmo.
Mas o que é o assédio? A resposta é: "depende!". Depende sobretudo a que ponto do globo é que nos estamos a referir e a considerar. Perspetivado a partir de certas zonas da Califórnia, o assédio sexual e moral pode ser quase tudo e mais alguma coisa, incluindo dizer "Olá!".
Contava um assistente de caracterização de um filme de terror de série B que, num destes dias, decidira abrir uma janela do estúdio, para fazer secar mais rapidamente o silicone de um figurino, e que fora alvo imediato de três processos disciplinares, uma contraordenação sumária e uma intimação para comparecer em tribunal para responder pela acusação de maus tratos: eram cinco mulheres que estavam sentadas na sala ao lado e que teriam sido suposta e brutalmente lambidas pela corrente de ar que entrou!
Dizem os especialistas em afrontas, que o assédio sexual e/ou moral consiste na abordagem repetida de uma pessoa a outra, com a pretensão de obter favores sexuais ou outros, mediante imposição de vontade. Que o assédio sexual é a ofensa grosseira à honra, à imagem, à dignidade e à intimidade da pessoa.
Mas que condutas constituem, afinal, assédio sexual ou moral? A resposta é a mesma de anteriormente:" depende!". Voltemos a dar, como exemplo, o caso de Hollywood, fingindo, ao mesmo tempo, que estamos em Portugal, para que se possa fazer o devido e próprio enquadramento e aproximação de estudo. Para esta circunstância particular, podem ser citadas as seguintes hipóteses de conduta:
piadas - "Estava um alentejano vestido de saia, a trabalhar, e..."
comentários sobre o corpo - " Que pele tão macia que tu tens, ó Lili..."
idade - " Fazes anos, hoje? Parabéns!
situação familiar - " O teu avô era tão boa pessoa!"
elogios atrevidos - " Esse casaco fica-te mesmo bem, onde é que o compraste?"
galanteios - " Quem me dera que o meu cabelo fosse tão fácil de pentear como o teu... que inveja..."
carícias - " Srª Genoveva, isto é o bloco operatório e estou a fazer-lhe uma artroscopia, não lhe estou a passar as mãos pelo joelho, porra!"
pedidos de favores - " Podia dar-me lume, se fizesse favor?"
intimidações - " Se não devolves essa cassete ao dono, telefono para Paris a fazer-lhe queixa de ti, ó António!..."
recusa de promoção - " Eu sei que tiraste o 12º ano e que sou o teu marido... mesmo assim, não posso publicar o teu romance balofo."
promessa de demissão - " Ou a senhora deixa o Facebook quieto, ou vou ter que repensar a sua situação dentro desta empresa!"
expressões verbais - "Oi! Como é que vão esses ossos?"
A mulher pode ser considerada assediadora? Que pergunta tão estúpida! É claro que NÃO!!! Até mesmo por questões históricas e culturais. Dá imenso jeito é que o homem seja sempre o assediador, sobretudo se ocupar um lugar de destaque na sociedade e se for possuidor de uma imensa fortuna. Não há qualquer notícia de que alguma mulher ocupe tal posição.
Fique o nosso leitor completamente consciente do seguinte: todas as 865.765.392 mulheres que se vieram queixar de terem sido alvo de assédio por parte de homens sediados em Hollywood e com contas bancárias recheadas estarão a dizer a verdade. Foram anos de recalcamento, dor e injustiça, tudo colocado cá para fora ao mesmo tempo, à velocidade da luz, num timing precioso, qual desabafo único, colegial e solidário de libertação.
Que cause espanto a dose ministrada, o tom e o formato, a proporção mediática e o número absurdo de queixosas! Não cause espanto o momento escolhido - em Hollywood, como sabemos, é tal como na lusitânia que, quando mija um português, mijam logo dois ou três!
Papagaio
