Não resisti a falar sobre ele, até porque achei, quase de imediato, que a situação o
merecia. Pode ter ar algo comum na sua aparência visual, mas garanto que é tudo menos uma pessoa vulgar. E não foi pela limitação do curtíssimo convívio que conseguimos, até agora, partilhar em conjunto, que houve impedimento de sentir curiosidade por algum " não sei o quê ou como explicar" sobre a pessoa em causa.
Quem quer ver o professor Luís Marrocano (ou "Tu, Luís") - que é assim que prefere ser chamado pelos outros, nada de poeta! - é confortavelmente sentado à beira do portátil. Objeto que trata com cuidado e com o qual parece estar frequentemente numa "consulta de médico". O cenário é tão docemente "redondo", suave e silencioso, que muitos, ao chegarem, nem dão pelos dois amigos! Quando o portátil está a "tratar da sua própria vida", entram ao serviço a caneta e a folha de papel. Sempre por perto, foi o que me constou! Confessou-me que são objetos familiares, de vital existência, qual máscara de oxigénio, não vá dar-se o caso de surgir alguma palavra que se torne em verso e, depois, escapa-se a ideia... só pela falta de onde escrever! Isso seria irreparável!!! Quase como deixar escapar o autocarro para o Paraíso, ou a lebre mais gorda e perfeita; não se faz! Vergonha para o mortal passageiro, vergonha para o orgulhoso caçador!!!
Não me alargarei muito mais, nem acho que o deva fazer, aqui! Não é minha intenção, neste espaço humilde e exíguo, alargar e alargar...demorar... tão só, e apenas, apontar! Até porque quem quiser conhecer o autor e a obra melhor, terá que se dedicar por si próprio - ou aproximando-se do homem ou procurando o texto. Faça o amigo leitor do blog isso mesmo, trilhando o seu caminhoindividual, com a sua iniciativa!
Eu próprio ainda não lhe li as peças todas. Tem-me ficado, daquilo que já conheço, um sorriso nos lábios e a admiração pela "explosão" das palavras e das ideias no autor, como uma guerra benigna e "pacífica", na qual não se morre, mas se nasce e produz, alegremente, através da fausta inspiração e do talento espontâneos.
Deixo-vos com Luís Marrocano, melhor, com um grãozinho de/do Luís, através de um pequeníssimo apontamento - reprodução devidamente autorizada pelo próprio - que pode ser encontrado na coletânea poética do próprio autor " Pedaços de Vida", das Edições 100 Título, trabalho editado recentemente e dado a conhecer ao público em data passada também muito recente.
Cordialmente
Papagaio
Voltas
Passo a vida às voltas,
À volta nem sei de quê,
Ou de algo que não volta
Ou volta e ninguém vê.
Dá-me voltas a cabeça,
Não sei que vida seguir:
Se voltar à minha casa
Para voltar a partir.
Uma volta é curtinha,
Outra volta é comprida,
Nunca dou a volta certa
Que me dê volta à vida.
Dei uma volta ao jardim,
E outra pela rua fora,
E dei voltas em redondo
Qual burro à volta da nora.
E depois de tantas voltas
Voltei sem saír de cá
Ou são as voltas da vida
Ou as voltas que a vida dá.
Luís Marrocano
in Pedaços de Vida
Edições100 Título

