A propósito de um post anterior, acabei a matutar sobre o problema ( ou não
problema) de ter a televisão ligada à hora do jantar. Muita gente o faz (ligar a televisão à hora da refeição - eu sou um deles!!!!), pelo menos aqueles que jantam à noite, em companhia, por exemplo, da família.
Não valerá a pena tentar colocar pontos de interrogação na situação. Não é necessário proceder-se a muitos estudos, fazer análises detalhadas ou tirar a régua e esquadro, no método científico, muitos números e vértices: o ângulo é certeiro há muitos anos, e cada vez mais; sabemos facilmente, seja por experiência própria, seja por relatos "empíricos de rua", que a caixinha que mudou o mundo continua a mudá-lo, para o bem e para o mal.
De tão mundanos e recorrentes que se tornaram, o lugar da televisão e o ligar de televisão surgem sem que alguém dê sequer por eles. E ficamos para ali, a engolir a sopa, a moer as batatas, a ruminar o bifinho e o peixinho ao som das bombas que caem em cima de prédios que já não são prédios, dos gritos dos refugiados a atravessar o canal em botes de borracha, das corridas dos superfugitivos que a polícia procura montanha acima, das razões dos políticos contra políticos, do corrupto corrompido que jura que não é corrupto, do treinador de futebol que diz que é melhor que o outro treinador de futebol...dos repórteres aos pulinhos, atrás do escândalo da senhora do "social", que fez uma plástica que correu mal...
Mas a questão essencial que coloco não é a da qualidade do material televisivo (ou da falta dela). Ou se aquilo que nos chega casa dentro, por intermédio da televisão, é benéfico ou não. Essa é uma questão que tem dado "muito pano" e continuará a dar. Não me sinto, sequer, com "fibra" mínima para abordar esse assunto. Não é para mim!!
Coloco, isso sim, a questão de qual será a notícia mais interessante à hora do jantar ? A da subida ou descida do barril de crude, a do IRS que amanhã nos irá cortar mais uma fatia de pão à mesa... ou a notícia do meu puto que arranhou o cotovelo no recreio, já depois de ter lido a composição dele na sala, para a professora e para os colegas? Ou a da minha mulher que comeu um pastel de nata supostamente "fabuloso", pastel esse trazido por uma colega lá do trabalho dela?
Darei por mim um tanto ou quanto distraído? A televisão faz companhia ao mais solitário, sem dúvida! Mas cá por casa somos mais na base do coletivo, julgo eu; e quem anda a falar por aqui é mais o político, o refugiado, o fugitivo do mato, o jogador de futebol, o polícia, o ladrão, o diretor corrupto do banco, o Estado Islâmico.
Estão-nos a mandar calar!?... eu tenho andado calado ...o meu filho tem andado um pouco mais calado também. Acho que ando a cortar um pouco a palavra ao pessoal, sobretudo à hora do jantar. E sou eu que ligo a televisão... geralmente!
Talvez não seja mal pensado mudar de estação um dia destes... e desligar a TV... Pode ser que a minha família resista à falta de desastres e catástrofes, ou corpos espalhados pela rua e comece a falar do seu próprio noticiário, não fazendo silêncio sobre si mesma!