Blogue do Papagaio Indiscreto

Excerto de "Os muros..." (em construção) de Alexandre Dias Pedro

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Negociação 

...esta fase é a menos conhecida das várias fases de adaptação, mas das mais importantes para o sofredor durante um curto período de tempo. O paciente já admite a existência da doença e tenta “negociar” a sua cura. Trata‑se de uma tentativa de ter algum controlo sobre as más notícias, pactuando com Deus e com os homens de ciência. “Se me ajudasse, dedicaria toda a minha vida a apoiar os outros”; “doutor, ajude‑me a viver mais alguns anos, até que os meus filhos não precisem tanto de mim”. É frequente que o paciente siga escrupulosamente as ordens, que dê início a hábitos mais saudáveis, que prometa ser mais compreensivo e tolerante com os outros, como “moeda de troca” pelo prolongamento e alteração da sua vida.

Exmo. Sr. Presidente do Conselho:

(...)O Agostinho e o chefe de brigada Severo informam-me do destaque. Desde a célebre tarefa iniciada há meses nos arrozais da Comporta que venho ganhando a vontade de sair. Aqui, cobras e lagartos são apenas os que se encontram enfiados nos juncais e na água, escondidos à falsa-fé, e que atacam os tornozelos dos imensos fangueiros. As raparigas e os moços levam mordidas constantes. Estas a juntar a dois esmagamentos debaixo das rodas dos carros das juntas e a um afogamento na vala, - tragédias que já tive oportunidade de assistir, causadas pela força brutal dos bois que, indiferentes, não param ao som do estalar dos ossos humanos. Não se fale, ainda, das quedas frequentes no poço. Esta gente sofre o bastante. E ainda lhes faltará passar pelo inferno. Mas, para além dessa dramática sina, que enluta a casa deste povo em diversos dos seus dias, nada de víboras, estalar de ossos nem afogamentos para o Estado(...)

(...) Ou tiro de lá a Beatriz nas próximas semanas ou nada feito! Cumpre-me dizer-lhe que desconfio que ela estará à espera e que só nós dois é que sabemos da situação, isto se não contarmos, a partir daqui, com o Sr. Presidente do Conselho. Se os pais descobrem da criança que há de vir… ou matam Beatriz (com a criança do lado de dentro) -  a mim não me botam eles as mãos! -  ou terei eu de os matar a eles. Isto é o que diz o meu entendimento, caso o Sr. Presidente não me queira mandar matar primeiro, pelo falhanço que tenho provocado na operação. Que dizer? Quando há nada… há nada!(...)

 (...)A Comporta não tem saído bem, admito! A verdade é que parece haver, por cá, quase nada. Andaremos, a expensas, com prejuízo sério do erário, a empenhar a força dos nossos recursos e a consumir o nosso precioso tempo. De onde vieram tais informações? Se de fonte séria, então enganaram-se! Talvez dois destes que por aqui andam merecessem levar um par de tabefes bem dados nas fuças, mas não muito mais que isso. O pior, julgo, é que neste preciso momento em que lhe escrevo, já metade dos comunas se encontra desconfiada noutra banda qualquer. Não será por estes lados! Admitir que a culpa também será minha. Talvez eu sirva em demasia para a apanha do arroz. Sabe que eu nasci das gentes do campo e tive a monda como madrinha. Peço-lhe desculpas, Sr. Presidente do Conselho, pelo meu excessivo jeito para o serviço da terra – tanto é da minha humanidade, que a eles não lhes passará minimamente pela cabeça o PIDE que há em mim(...)

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