
Quando a Fátima Campos Ferreira começou a apresentar o "Prós e Contras", tinha menos trezentos centímetros de rugas debaixo dos olhos. Na altura, os seios também lhe estavam menos em baixo e a casca de laranja não causava depressão individual nem ansiedade. Sampaio calculava alistar-se para Presidente e Salazar esperava pacientemente no caixão para ir a enterrar em Santa Comba. Assunção Cristas ainda não tinha nascido e a igualdade de género não figurava no dicionário de português. Entretanto, muitos dos convidados da Fátima já faleceram e uma parte do público atendente já se separou, teve filhos bastardos, mudou de sexo, emigrou para o Estado Islâmico, aderiu ao movimento sexista #MeToo, bem como às modas dos telemóveis minúsculos que, por sua vez, já se transformaram em smartphones do tamanho de tijolos de quinze; os que não se converteram a qualquer destas seitas, mudaram para a "Passadeira Vermelha" , "Atração em Pelota" ou " O meu pénis é mais colunável que o teu".
Os, então, avós, também já cá não estão, a não ser que se esteja a falar das fedorentas listas eleitorais, e os, então, pais,-que incitavam irritantemente os seus filhos a dar beijinhos nos vovós,-passaram à categoria etária seguinte, passando, eles próprios, a violentadores dos direitos alienáveis dos ânimos pueris antibeijoquice. Os, agora sim, avós, continuam a reclamar e a receber os carinhos e beijinhos dos seus novos netos, a pedido coercivo ou por violentíssima ação espontânea. O professor Daniel, que no passado era osculado selvaticamente pelos molestadores dos seus próprios avós, passou a recusar-se a ser lambido pelos próprios netos, já para não falar da sua conversão aos fascínios das sevícias sado. Na verdade, entre as chibatas e os apertões esganadores com cordas de domar juntas de bois, todos sabemos que são os beijos que aleijam mais!
Enfim, a máquina do mundo tem mudado severamente, desde então. Só o "Prós e Contras" continua exatamente na mesma: a distribuir pó de bocejo, a comer estupidamente os nossos impostos, a abrir antena a eunucos do intelecto e a promover debates que deixam tudo invarialmente na mesma.
Pap