Se não fosse o caso de haver uma "malandriçocracia" dos media tradicionais e uma "hipocritocracia" das redes sociais, em conjunto com a obsessão depressiva e venal dos clickbeites, diríamos que o desafio da "Palavra do Ano" até poderia ser significativamente intrigante e curioso, sobretudo por conhecer a luz numa época em que a generalidade das pessoas não liga a ponta dum corno ao vocabulário nem dá qualquer valor à língua portuguesa. Pior: num país que gosta muito de copianços - debruçados sobre aquilo que se vê lá fora - e em que cada vez mais tantos são os que não sabem bem aquilo que dizem, escolher palavras como pretensa diversão pública parece bizarro.
Resumo: perante a inegabilidade de que os discursos estão reféns de um atroz preço de saldo e as frases são atiradas à tonelada para a praça pública, que nem macarrão colante e agreste, nos menús da televisão e outras plataformas sociais, lá se lembraram alguns espertalhões oportunistas, que simular gosto mentiroso pelas palavras, nos locais certos e pelos motivos errados, gera gordo mediatismo.
Já agora, uma vez que escolheram "enfermeiros", deveria juntar-se-lhe "urgência"! Do mesmo modo, em vez de "Palavra do Ano", poderia transformar-se, a não inocente jogada, sem grande prejuízo do conceito e da fundamental viralidade, em "Palavra do Ânus".
Pap...